|
"perdem seu tempo" em longas consultas, ouvindo
atenciosamente as
dores da alma de quem sofre, a duras penas, as angústias
pelo sentido da vida que se foi.
Eles empobrecem na matéria corroída, pois "perdem" seu
precioso tempo com os lamentos
subterrâneos alheios. Eles levam o mercado da medicina à
falência, pois suas clínicas foram
transformadas em escolas em miniatura. O capitalismo da
saúde imediata das farmácias quer a
cabeça destes sonhadores
enlouquecidos...
Assim, o mundo controvertido da solidão aterroriza as
prestações de psicoterapia em débito.
Quem sentiria maior constrangimento senão os mercadores
da doença fabricada, diante da
calamidade de uma agência de publicidade sem planos de
saúde prontos na cabeça dos
assistentes fabricantes de imagens
mortas?
Dores inconscientes são sinais do deserto da alma no
transcurso da vida. Elas surgem como
veículos de absorção do mundo pelo aparelho ilustrativo
da imaginação criativa. O trabalho
terapêutico alcança desse modo o limite da fala que
processa a vivência psíquica
desfalecida
pelos ramos ressequidos da dor. Quando a pessoa deixa de
criar imagens significativas, sua
percepção da realidade enfraquece pela desconexão com a
fonte interior da alma. Diz-se,
servindo-se de uma metáfora religiosa, que o ser humano
desligou-se de Deus.
Quando o paciente atormentado fala de si, algo de sua
translúcida nudez resplandece no vazio
infinito da ausência de significados. Por isso, a luta do
indivíduo não é contra sua história, mas
a
favor de si mesmo, perdido na breve passagem do tempo
pelo esquecimento de seu próprio ser.
O ser humano adoece quando ecoa em seu horizonte a
ausência do sentido da vida. Entra
assim
em cena a ação dos terapeutas da alma. Aqueles que
escutam os apelos do ser no chão
pedregoso do deserto de seus adoecidos
interlocutores.
Os terapeutas da alma navegam pelo processo da dívida
existencial a ser resgatada no tempo de
suas consultas. Eles, orientados pela sinfonia do ritmo
cotidiano de sua vivência, acabam
mergulhando em seu próprio interior, mediante a escuta
atenta, que corresponde, quase sempre,
ao caminho da tragédia humana que trazem os relatos de
seus pacientes. Assim, os médicos da
alma estão a todo instante ligados ao caminho da dor de
quem relata suas queixas, dialogando
com os céus pela escadaria da
terra.
Os pacientes vêem perdidas suas histórias, e pensam a
pintura de sua regeneração pelas
palavras do médico. Há inevitavelmente uma confiança
inicial e uma mascarada expectativa por
parte dos pacientes, a serem contempladas ou não durante
as conversas com o terapeuta.
Entretanto, ninguém busca ajuda sem minimamente aguardar
uma resposta ao seu anseio. A
esperança da cura constitui, por isso, o oxigênio do
diálogo, segundo as trilhas descobertas
no
domínio da experiência humana comunicada e partilhada
durante alguns minutos.
O tratamento segue como pistas que se alternam mediante
avanços e recuos, numa luta
constante pela recuperação da alegria de viver, que é
consumada pela decisão por reconstruir
a
vida de quem sofre dores amargas no cerne de sua alma em
lama, bem como pela recuperação
de seu sentido mais profundo e verdadeiro. A doença
encontra paulatinamente o seu ocaso, já
'
que perde sua força imperativa na consciência do paciente
transformado em agente de sua cura.
As cores da alma curam as dores do corpo. A saúde lava as
células da tristeza.
Assim, a fala poderosa do médico terapeuta encontra o
Deus escondido nas lacunas do
subterrâneo outrora abandonado da alma. Antes, um
paciente fragmentado pela dor incessante.
Agora, o ser ressurgido das cinzas do abandono rumo à
felicidade de um olhar
critalino,
na cumplicidade da
consulta transformada em confissão. O médico transformou-se em
amigo; opaciente, em ser
humano repleto de vida. A saúde mora agora na morada da alma
ressurreta. |