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Sanskara - Desenvolvimento Humano

O caso Ângela    

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O Caso de Ângela: Um Terrível Acidente de Carro

Um exemplo da complexa erupção de diferentes camadas da psique após um trauma muito real, e que está aberto a muitas interpretações, é o de Ângela, vítima de um recente acidente de carro.

Ângela foi uma de várias vítimas de um carro que, fora de controle, subiu uma calçada repleta de pessoas atropelando-as. Ela quebrou a perna e ficou hospitalizada por pouco tempo, mas estava fazendo terapia há vários meses devido às reações pós- traumáticas ao choque, que diminuíam muito lentamente. O mais traumático para ela não foi ter sido atingida fisicamente, mas sim ter visto a mulher que conduzia o carro morrer decapitada perante seus olhos.

Apesar de estar em terapia, as sensações de dissociação e de irrealismo em relação ao ocorrido persistiam, e embora durante as sessões de terapia ela sentisse a liberação de grande parte do terror congelado, a cena da carnificina não ia embora. Durante uma sessão de Memória Profunda ela foi encorajada a reviver o acidente. Isso levou a mais catarse, incluindo choro e tremor, e uma clara reprodução do momento de dissociação, quando lhe veio o pensamento “Isso não está acontecendo”. Quando levada e esse momento mais uma vez, ela começou a gritar e seu corpo pareceu congelar de pânico. “Tem pedaços dos corpos das pessoas espalhados” ela gritou. “Ai meu Deus! Me acertaram!” Ela então abraçou a perna próxima ao quadril, bem no local da fratura. “O que você está vendo?” - o terapeuta lhe perguntou. Logo ficou claro que ela estava tendo um tipo de reminiscência de uma batalha da Primeira Guerra Mundial. Havia caído uma bomba e ela se viu como um soldado, cuja perna foi estraçalhada. Ele estava rodeado por membros e troncos de outros soldados que haviam morrido. Entre os cadáveres e membros espalhados, estava a cabeça decapitada de um amigo. Nesse momento se deu uma catarse muito mais profunda, com gritos incontroláveis. O terapeuta permitiu seu transcurso. Isso levou a uma enorme sensação de alívio. Mais tarde na sessão, o self do “soldado” lembrou-se de ter morrido de gangrena em um hospital de campo próximo. Ele então se viu sair do corpo e flutuar para um lugar tranqüilo acima da terra com os espíritos de vários outros. Ele então é encorajado a falar com seus companheiros. Ele encontra vários conhecidos e percebe que eles estão tranqüilos e já não sentem dor. Agora há sentimentos de paz, de reconciliação. Após essa sessão Ângela deixou de sofrer de memórias recorrentes do acidente de carro.

O que aconteceu? Ângela se lembrou de uma “vida passada” ou deslocou seu trauma do acidente de carro para uma história de guerra “imaginada”? Ou foi um sangramento do inconsciente coletivo da memória da Grande Guerra para sua psique que alguma forma livre associou? Cada uma dessas teorias tem seu mérito e são discutíveis, mas o ponto importante é que, devido à total permissão dada à psique de Ângela para seguir suas ressonâncias e associações, ela foi capaz de chegar a um lugar de resolução e de remissão dos seus sintomas, independente de sua origem. O que está em questão não é a verdade da história, mas sim o poder terapêutico de cura da história, o de verdadeiramente se tornar uma “ficção curadora” que surgiu do inconsciente criativo da própria paciente.